Essencialmente a resposta é sim.
E é por isso que ela é tão repetitiva? Aí a resposta é não.

Se a missa tem se tornado um fardo, algo chato e repetitivo e que você só participa por obrigação religiosa, pode ser que ainda não tenha compreendido o que de fato é a missa.
Tentar explicar o que é a missa de forma resumida, prática ou direta é muito difícil, pois, se trata do Sacramento dos sacramentos. Estamos falando da sagrada Eucaristia, ou seja, o pão que se transforma no Corpo de Cristo e o vinho que se transforma em seu Sangue.
Como ultimamente tenho ouvido muitos irmãos e irmãs relatarem dificuldades em participar da missa de forma proveitosa, vou me arriscar a escrever um pouco sobre ela de forma mais direta e simples, tentando facilitar a compreensão.
Santo Agostinho levantou fortemente a tese da relação entre a fé e a razão dizendo: “Intellige ut credas, crede ut intelligas” (é preciso compreender para crer e crer para compreender) e “fides praecedit intellectum” (a fé precede a razão).
Ou seja, as duas vias são necessárias para se viver de forma experiencial as coisas de Deus. Entender, porém, também ter fé.
Sendo assim, vou me esforçar pra que sua compreensão sobre a missa aumente, e você pode se esforçar um pouco mais em acreditar no que ali acontece. Combinado?
Pra início de conversa: Não é você que faz o sacrifício de ir à missa. A missa é o sacrifício de Jesus por você.
Um pouco antes de se entregar ao martírio que nos deu direito a vida eterna, Jesus sentou com os seus apóstolos e numa mesa, durante uma refeição, agiu da seguinte forma: “Tomou em seguida o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e deu aos discípulos, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Do mesmo modo ao fim da ceia, tomou o cálice em sua mãos e disse: Este cálice é a nova aliança em meu sangue, que é derramado por vós“. São Lucas 22, 19-20.
Durante a santa missa, quando o padre repete esse gesto e as palavras de Jesus, pela ação do Espírito Santo, o pão se torna verdadeiro Corpo de Cristo e o vinho se torna verdadeiro Sangue de Cristo (chamamos isso de transubstanciação).
Esse momento vai além da mudança de natureza das espécies (pão em Corpo e vinho em Sangue). Significa que Jesus se entrega totalmente ao sofrimento. O seu corpo é flagelado e chagado. Seu sangue é derramado. Ele é crucificado. Mas ao fim desse momento, Ele estará ressuscitado em seu Corpo glorioso. Esse é o sacrifício de louvor mais perfeito a Deus (eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo). Por isso Jesus é o Nosso Salvador.
Ao comer a Hóstia (comungar), pela fé nos escritos bíblicos, na tradição da igreja e no ato litúrgico acontecido no altar, nos unimos a Jesus, em sua Paixão, Morte, Cruz e Ressurreição de uma forma única que aqui na terra não haverá outra igual. De forma mais que humana, nos tornamos Templos do Espirito Santo. Jesus está dentro de nós pra nos transformar de dentro pra fora.
Infelizmente, muitos católicos abandonaram sua fé, por não compreenderem esse momento. E talvez por não compreenderem, não viveram a experiência da comunhão plena com Jesus.
Após compreender isso, veja quão sublime é o momento da comunhão. A Trindade Santa toda reunida bem na sua frente. Deus Pai, que recebe o Sacrifício de louvor mais perfeito. O Espírito Santo que permite que isso ocorra no tempo e no espaço atual e Jesus que se dá em Sacrifício perfeito de louvor ao Pai, por nós e a nós.
Não se trata de um novo sacrifício a cada missa. É o mesmo momento que se atualiza hoje. Por isso é a mesma coisa, sem nunca ser igual.
Talvez essa seja a parte mais complicada de se entender. Mas vamos lá!
Para o povo hebreu celebrar a Páscoa, ou seja, a passagem da escravidão das mãos do faraó para a liberdade (terra prometida) não era simplesmente uma festa qualquer. Tratava-se de um memorial, mas não de um simples relembrar. Tratava-se de fazer memória viva, como se o povo, após anos já na terra prometida vivesse novamente aquela libertação. Como se após muito tempo aquelas novas gerações tivessem vivido de fato aquele momento passado.
Jesus, pelo seu sacrifício, fez a nova e eterna aliança; para a vida eterna. A nova e definitiva libertação; do pecado. A nova e definitiva passagem e pediu na última ceia que aquilo fosse feito em sua memória “fazei isto em memória de mim..”.
Lembremos que antes de Jesus o povo hebreu comemorava a Páscoa com toda a intensidade humana possível em relação à Páscoa. A nova Páscoa realizada pelo próprio Deus, na Pessoa de Jesus, ganha um novo atributo que é a intensidade divina. Não se trata mais de um povo tentando se atualizar em um tempo e sim o tempo se atualizando em seu povo.
O Catecismo da igreja católica no número 1366 diz que: “A Eucaristia é, portanto, um sacrifício porque representa (torna presente) o sacrifício da Cruz, porque dele é memorial e porque aplica seus frutos“.
Leia atentamente este trecho extraído do Manual de formação dos cenáculos, Vol 1, dos Apóstolos Eucarísticos da Divina Misericórdia, pag. 12:
“Para sermos mais precisos, no entanto, o que efetivamente acontece na missa é que os participantes são retirados da dimensão do tempo e do espaço terrenos, conforme a experiência que temos deles, e são levados à dimensão do tempo na perspectiva de Deus. Os teólogos chamam essa divina perspectiva de “eterno agora” de Deus.
De forma mais simples, significa que Deus vê e age através de tudo que um dia aconteceu, está acontecendo ou estará acontecendo, num mesmo instante. Em outras palavras, todos os tempos e lugares estão presentes diante Dele ao mesmo tempo. O único sacrifício de Cristo, na Última Ceia e na Cruz, está por isso eternamente presente diante de Deus e seus efeitos podem ser aplicados por Ele a qualquer ponto do tempo na história – presente, passado ou futuro.”
Você não assiste à missa. Você participa dela.
É o corpo de Jesus que é flagelado, sacrificado, ressuscitado e no pão, após a transubstanciação, comungado. Ao, literalmente, comer o Corpo de Cristo, você está assinando embaixo o que diz a bíblia:
“Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros.” I Cor 12 – 27 .
“Assim nós, embora sejamos muitos, formamos um só corpo em Cristo, e cada um de nós é membro um do outro.“ Rom 12 – 5.
Isso chama-se “comunhão”. A comunhão mais plena que pode existir. Por isso esse sacramento é chamado de Santíssimo Sacramento. O Corpo de Cristo é a igreja e nós fazemos parte desse corpo, como membros, porém, sem a função utilitarista de um membro, mas sim como integrante, uno, Deus em mim e eu em Deus.
Isso tudo na santa missa, pelo sacrifício de Jesus. Pela transubstanciação. Pela fé.
“Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que deverei dar pela vida do mundo é a minha carne“. João 6 – 51.
Também é nesse momento que você poderá se unir ao Sacrifício de Cristo e oferecer os seus sofrimentos como um gesto de louvor e agradecimento ao Pai. Sendo assim, em Cristo, este gesto se tornará perfeito. Mas antes de qualquer coisa, é fundamental apropriar-se de que esse momento só acontece por amor a você. Ou seja, o sacrifício de Jesus é por você!
Não é o padre que transforma o pão em Corpo de Cristo e o vinho em Sangue de Cristo.
A igreja reconhece que humanamente isto não é possível. O sacerdote, no caso o padre (que é o ministro ordenado) é um instrumento nas mãos de Deus e age na pessoa do Cristo (in persona Christi), ou seja, não é o padre quem está agindo, mas sim o próprio Cristo. Outro ponto importante a se conhecer é acerca da eficácia do Sacramento. A igreja nos ensina que a sua ação se dá no modo ex opere operato. Significa que a eficácia ou as graças provenientes da Eucaristia não dependem da santidade ou mesmo da fé de quem o ministra, mas sim de quem o está recebendo. Basicamente, se você acredita e age de acordo com o que o sacramento se propõe, o próprio Cristo irá agir em seu favor, sendo o sacerdote um simples instrumento.
A missa é um rito litúrgico e todo rito possui etapas que preparam pra algo especial
A missa é dividida em 4 partes.
1 – Ritos iniciais:
O sacerdote faz a acolhida e o milagre que está por vir acontecerá em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Perceba. Invocamos a Trindade Santa, pois, reconhecemos que sem Ela, nada, literalmente nada acontece.
No ato penitencial, pedimos perdão a Deus cientes de que somos pecadores, mas que isso não impedirá a presença do Cristo e a graça do seu Sacrifício. Verdadeiramente arrependidos, nos unimos aos anjos e cantamos ou proclamamos o glória: “Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura. E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia: Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da bondade divina“. Lucas 2, 12-14.
2 – Rito da palavra:
Ouvimos a Palavra de Deus. Antigo e novo testamento e cantamos os salmos. Uma herança do povo hebreu. “Terminado o canto dos Salmos, saíram para o monte das Oliveiras.” Marcos 14 – 26. Tanto na narração bíblica quanto na missa, o Sacrifício virá após o canto dos salmos.
Ainda no Rito da Palavra é proclamado o Evangelho. A boa nova. Por isso ficamos de pé. Na sequencia o padre nos esclarece sobre as escrituras durante a homilia.
Esse é o momento do Verbo. Logo na sequencia, durante o rito eucarístico, liturgicamente o Verbo ser tornará Carne. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.” João 1, 14.
Rezamos o Creio juntos, proclamando as verdades que mantém a unidade e a cumplicidade da nossa fé e da nossa igreja. A oração dos fiéis são os pedidos da igreja enquanto comunidade. Mas na linha do Sacrifício significa entregar esses pedidos nas mãos do Cristo que está a caminho do altar para ser imolado, para que Ele interceda por esses pedidos. Não são palavras jogadas ao vento. São pedidos entregues ao Cristo que caminha ao altar.
3 – Rito Sacramental, da Eucaristia ou rito Eucarístico:
(Eucaristia. Palavra originada do hebraico Berakah que significa ação de graças)
A apresentação das oferendas ou ofertório não significa dar dinheiro. É nesse momento que ajudamos a manter a igreja nas suas ações sociais e seus gastos, mas a parte mais importante é o pão e o vinho que são apresentados ao altar. A oração feita pelo sacerdote sobre as oferendas diz tudo e não precisa de mais detalhes. É uma pena não ser feita em voz alta para toda a assembleia:
“Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo pão que recebemos de vossa bondade, fruto da terra e do trabalho do homem, que agora vos apresentamos e para nós se vai tornar pão da vida!”
E a Assembleia responde: “Bendito seja Deus para sempre!”
Em seguida, o sacerdote eleva o cálice e diz: “Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo vinho que recebemos de vossa bondade, fruto da videira e do trabalho do homem, que agora vos apresentamos e para nós se vai tornar vinho da salvação!”
Porém antes de consagrar o vinho, o sacerdote põe um pouco de água no vinho e diz: “Pelo mistério desta água e deste vinho, possamos participar da divindade de vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade.”
Esse pouco de água simboliza a união da nossa natureza humana com a divina. Todos nós mergulhados no vinho que se tornará Sangue para formar um só Corpo com Ele.
Dentro da oração Eucarística, cantamos o Santo. Neste momento aclamamos e reconhecemos a grandeza de Deus. “No ano da morte do rei Ozias, eu vi o Senhor sentado num trono muito elevado; as franjas de seu manto enchiam o templo. Os serafins se mantinham junto dele. Cada um deles tinha seis asas; com um par de asas velavam a face; com outro cobriam os pés; e, com o terceiro, voavam. Suas vozes se revezavam e diziam: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo! A terra inteira proclama a sua glória!”. Isaias 6, 1-3.
Compreende agora que não se trata de só mais uma música?
Enfim é chegado o ápice da celebração. O sacerdote invoca o Espírito Santo e pela repetição dos gestos e palavras de Jesus acontece o milagre eucarístico. O pão já não é mais pão e sim Corpo e o vinho já não é mais vinho, é sangue.
“Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo”.
A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: “Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?”.
Então, Jesus lhes disse: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente.” João. 6, 48-58.

4 – Ritos finais:
Utilizo aqui as palavras do Prof. Felipe Aquino: “Para muitos, este momento é um alívio, está cumprido o preceito dominical. Mas para outros, esta parte é o envio, é o início da transformação do compromisso assumido na Missa em gestos e atitudes concretas. Ouvimos a Palavra de Deus e a aceitamos em nossas vidas. Revivemos a Páscoa de Cristo, assumindo também nós esta passagem da morte para a vida e unimo-nos ao sacrifício de Cristo ao reconhecer nossa vida como dom de Deus e orientando-a em sua direção.“
Nenhum estudo teológico ou aprofundamento substituirá a experiência
Deus se faz tão pequeno e frágil em um pedaço de pão justamente para fugir de qualquer nível de explicação ou compreensão humana. Conhecer o que acontece na missa é fundamental, mas acima disso é necessário ter fé e ter a experiência de comungar o Corpo de Cristo.
A nossa maior falha não é a de nos acharmos indignos em recebê-lo, mas é a de acreditar que Ele não se faz presente ali.
“Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa. Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos.” João 15, 11 – 13.
Cristo, cabeça e membros, é o único sacerdote da nova aliança, isto é, o mediador, o lugar do encontro entre Deus e a humanidade. A liturgia é exercício de sua função sacerdotal: é ele que ora e celebra em nós, é nele que o mistério é celebrado. Assim, a Igreja e a liturgia são o prolongamento da ação salvífica de Deus.
- Fontes e mais detalhes sobre a Santa missa:
- 9 Orações secretas que o padre faz na missa.
- Catecismo da igreja Católica – CIC e Manual de formação dos cenáculos, Vol 1, dos Apóstolos Eucarísticos da Divina Misericórdia.
Agradecimentos pela revisão do artigo ao Padre e grande amigo Leonardo Mariano MIC – Congregação dos padres Marianos.
Senhor te abençoe e te guarde, o Senhor te mostre a sua face e conceda-te sua graça. O Senhor volva o seu rosto para ti e te de a paz.
(Livro de Números 6, 24 a 26)
